Quando foi lançado há 8 anos o projeto Escola Virtual foi disruptivo e faltavam as condições estruturais para que a ideia funcionasse na sua plenitude, mas Rui Pacheco, diretor do departamento de Multimédia na Porto Editora garante que este pioneirismo deu à empresa uma vantagem competitiva.

Desde 2005 o conceito foi evoluindo em termos de conteúdos e funcionalidades mas também em resposta às exigências dos utilizadores que procuravam este tipo de serviços em disciplinas e graus de ensino mais abrangentes.

Das escolas e professores aos utilizadores individuais, Rui Pacheco garante que a adesão é muito positiva e explica em entrevista ao TeK a estratégia do serviço e as linhas de investimento da Porto Editora nesta área. Sem rodeios, o diretor da editora salienta também a forma como o projeto veio suprir falhas do Plano Tecnológico da Educação.

[caption]Rui Pacheco[/caption]
TeK: Quando lançaram a Escola Virtual acha que "pecaram" pelo pioneirismo? O mercado estava preparado para o conceito?
Rui Pacheco:
Não creio que se possa "pecar" por ser de algum modo pioneiro. Se é verdade que algumas condições "estruturais" não eram as ideais (por exemplo, em 2005, o número de lares com acesso de banda larga à internet era diminuto), desfrutamos da vantagem competitiva de estabelecer uma referência no mercado. Quanto à preparação para o conceito, objetivamente, o mercado nunca está preparado para uma oferta disruptiva e tivemos dificuldade em transmitir a ideia de que pretendíamos prestar um serviço educativo, com conteúdos interativos desenvolvidos para esse efeito e não apenas disponibilizar versões digitais dos recursos pedagógicos impressos.

O facto do próprio conceito ter evoluído ao longo do tempo, através da ampliação do leque de serviços, conteúdos, funcionalidades, bem como a nossa orientação para diferentes públicos-alvo/ambientes de aprendizagem, tornou difícil a assimilação do que a Escola Virtual era e é. Por exemplo, no início, visávamos servir essencialmente os alunos, como auxiliar de autoestudo, mas rapidamente evoluímos para prestar também apoio aos professores, de molde a providenciar serviços orientados para a atividade na sala de aula (estratégia que o PTE iria mais tarde alavancar) e, atualmente, temos, por exemplo, cursos de inglês não curricular com apoio personalizado.

TeK: Qual o balanço que faz a nível da adesão dos utilizadores nestes oito anos?
Rui Pacheco:
Felizmente, todos os anos registamos um crescimento significativo no número de utilizadores e no número de instituições aderentes. Em 2005, apesar de todas as condicionantes de foro tecnológico, fomos confrontados com uma procura que nem sequer conseguíamos servir (existiam conteúdos apenas para o 9.º e 12.º anos), ou seja, as nossas expectativas foram claramente superadas.

Desde 2009, altura em que estabilizamos a nossa oferta para o ensino básico e secundário, cobrindo todas as disciplinas/anos que tínhamos definido no plano original, o crescimento tem sido ainda mais acelerado. As instituições mais representativas do ensino privado percecionaram a nossa oferta de serviços e adotaram-na massivamente (a EV está presente na maioria dos Colégios do Top 20); do mesmo modo, as instituições públicas, com as condições infraestruturais proporcionadas pelo PTE e apesar dos seus condicionalismos económicos específicos, também passaram a usar a EV no contexto da sala de aula com grande assiduidade.

Quanto aos utilizadores "domésticos", trata-se do segmento onde a evolução foi inicialmente mais lenta mas que, apesar da crise económica, tem registado taxas de crescimento mais significativas nos últimos 2 anos.

TeK: Em termos de serviço e tecnologia como é que o Escola Virtual se adaptou à evolução?
Rui Pacheco:
Os serviços que prestamos sob a marca Escola Virtual são radicalmente diferentes dos que prestávamos em 2005, aspeto que coloca inúmeros desafios nomeadamente na forma como comunicamos e damos a conhecer o que é a EV. A metamorfose do serviço, o crescimento das funcionalidades e dos públicos-alvo, em paralelo com a emergência de novos formatos, novos dispositivos e novos ambientes de utilização motivou que, por exemplo, não usemos praticamente nenhuma das soluções tecnológicas originais, quer ao nível do backoffice, quer ao nível daquilo que os nossos utilizadores percecionam.

Já vamos na terceira geração de soluções, quer ao nível da produção de conteúdos, quer ao nível dos serviços web que suportam a EV e estamos presentemente a operar mudanças muito significativas ao nível dos formatos dos conteúdos disponibilizados e das interfaces.

A emergência dos sistemas e dispositivos operativos móveis como contextos preferenciais dos nossos utilizadores motivaram um novo esforço de desenvolvimento, pelo que, dentro de 2 ou 3 anos, é muito provável que a EV seja, na sua essência, um serviço radicalmente diferente do que hoje existe.

TeK: Sentem também que os alunos e os pais são agora "clientes" diferentes, com maior maturidade na utilização das ferramentas?
Rui Pacheco:
Claramente. O uso da tecnologia como suporte para aprendizagens ou para apoio a processos de ensino tornou-se uma inevitabilidade. Há 8 anos era maior a curiosidade do que a noção da efetiva utilidade que estas ferramentas podem ter. O mesmo se passa com a maturidade enquanto consumidores: a ideia de que não valeria a pena pagar porque que existiria algo gratuito equivalente, algures na Internet, foi-se desvanecendo.

O público tende a perceber que a qualidade, a coerência, a fiabilidade e a integração de serviços têm um preço e é legítimo requerer um pagamento. Os nossos clientes pagam para ter garantias, para obter resultados concretos, são exigentes e percebem claramente a diferença entre o que a Escola Virtual proporciona e o que outros anunciam como ofertas concorrentes.

TeK: De que forma o Escola Virtual vem suprir uma peça que ficou por completar no Plano Tecnológico da Educação, a da disponibilização de conteúdos interativos que ajude a tirar partido da infraestrutura criada?
Rui Pacheco:
O projeto Escola Virtual supriu, em parte, a muito deficiente implementação de dois dos pilares fundamentais do PTE: o dos conteúdos e o da formação dos professores. Nessa medida, a Escola Virtual conferiu utilidade a muito do material informático que o PTE colocou nas mãos de professores e alunos - isto foi algo que testemunhamos diretamente mas que nos foi também comunicado, em inúmeras ocasiões, por responsáveis pelos agrupamentos, por docentes e por autarcas.

Por motivos que não importa agora referir, o Estado investiu desmesuradamente em computadores, redes locais, quadros interativos e na disponibilização de acesso de banda larga, acreditando que os conteúdos surgiriam por geração espontânea, que o denominado user generated content supriria todas as necessidades. A verdade é que se queremos ter conteúdos de qualidade, de acordo com as próprias orientações programáticas do governo, não podemos deixar a tarefa de os desenvolver ao acaso, dependente do voluntarismo amador ou exigir que pessoas com outras atribuições prioritárias e sem formação específica para o efeito o assumam.

Enunciar que a "wikização" resolveria o problema ou enunciar de passagem soundbytes como a "aprendizagem em rede" pode ter sido popular ou até projetar uma imagem de pseudo modernidade, mas foi manifestamente inconsequente e frustrou as expectativas de muitos agentes educativos.

TeK: A vossa perceção é de que estas ferramentas melhoram efetivamente a aprendizagem dos alunos ou o professor continua a ser o pivot essencial no processo de aprendizagem?
Rui Pacheco:
A nossa convicção, assente nos estudos que foram realizados (sobre a Escola Virtual e outros serviços estrangeiros com funcionalidades e objetivos similares), nos resultados dos que usam a EV e no nível de satisfação geral, vai no sentido de dizermos que este tipo de serviços contribui efetivamente para a melhoria do desempenho dos alunos mas não substitui, nem nunca pretendeu fazê-lo, o papel central do professor como orientador e dinamizador das aprendizagens.
Aliás, o simples facto de alargarmos o nosso portefólio de serviços incluindo o apoio personalizado (providenciando feedback de professores via fóruns, chat ou em webconferencing) indica que acreditamos no valor diferenciador do fator humano, não obstante trabalharmos todos os dias para conferir maior "inteligência" aos nossos sistemas.

TeK: Quais são os vossos objetivos de evolução para os próximos 8 anos em termos de serviço e tecnologia mas também de número de utilizadores? Há muito espaço para crescer?
Rui Pacheco:
Apesar de pensarmos no que fazemos a longo prazo, é-nos impossível antever com o mínimo de precisão o que acontecerá dentro de 8 anos. Sabemos contudo qual é o nosso caminho para os próximos 3 a 5 anos e, como não poderia deixar de ser, passa por uma progressiva integração de todos os serviços, pela conjugação harmoniosa do que é digital com os recursos educativos ditos convencionais, pelo estender dos serviços que prestamos a múltiplos ambientes e dispositivos.
Temos ambição e existe objetivamente muito espaço para crescer: temos "apenas" 200 mil utilizadores e existe mais de um milhão de alunos (K-12) só em Portugal - queremos servir mais alunos, apoiar mais professores, porque acreditamos que poderemos contribuir decisivamente para o incremento do sucesso educativo.

TeK: A Porto Editora está também a exportar este modelo?
Rui Pacheco:
A Escola Virtual é um serviço com algumas características específicas que decorrem das necessidades dos nossos professores e alunos, do nosso contexto infraestrutural e do nível de maturidade do nosso público. Tal como existe em Portugal, o serviço faz sentido noutros pontos do globo (e é presentemente usado por comunidades portuguesas em vários países), mas não na maioria deles. Na atualidade, aquilo que acontece é que partes dos serviços e dos conteúdos desenvolvidos em Portugal são usados em projetos educativos da empresa e/ou foram licenciados a terceiros, como acontece, por exemplo, na Turquia.


Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Fátima Caçador

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