Instalar ou não instalar uma app de rastreamento de contactos e de sintomas? A preocupação com a forma como os dados registados pelas aplicações que pretendem ajudar no combate à COVID-19 vão ser utilizados, e que implicações isso tem para a privacidade dos cidadãos, tem sido apontada como um dos principais entraves à instalação das apps. E essa resistência pode pôr em causa a eficácia destas soluções para controlar a disseminação da pandemia, agora que se voltam a abrir portas para um “desconfinamento” gradual. Várias organizações têm vindo a defender a solução, e a divulgar regras que pretendem garantir a proteção dos dados, como a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu, mas as dúvidas são levantadas por organizações de proteção de dados na Europa, incluindo a portuguesa D3.

Entre as propostas que começam a ser desenvolvidas há modelos diferentes, entre as que estão focadas no rastreamento de contactos, como a STAYAWAY COVID, e outras aplicações que juntam a identificação de sintomas e informação útil para os utilizadores, e que são dirigidas à população em geral ou a empresas que pretendem assegurar a proteção dos seus colaboradores. CovidApp, CoronaManager, Covidografia e OK Detect (que também se chamava CovidApp mas que mudou de nome), são algumas das apps que foram apresentadas nas últimas semanas e que tiveram uma origem diferente, nascendo de projetos voluntários ou de iniciativas de empresas de TI, mas que partilham o objetivo de ajudar a combater a pandemia.

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Os responsáveis pelas apps participaram numa conversa digital promovida pela APDC no âmbito do ciclo “COVID-19 Digital Reply” que já na semana anterior tinha recebido dois dos promotores da STAYAWAY COVID. Entre a forma como definiram as bases de uso das apps, o seu âmbito e a preocupação com a segurança e privacidade dos utilizadores, a discussão passou também para possibilidade de criação de um ecossistema, que poderia combinar a lógica de contact tracing com o registo de sintomas.

Esse é, aliás, o objetivo de um grupo de trabalho criado no âmbito da iniciativa Tech4COVID, e que foi anunciada na semana passada, a 1APP4PT, como explicou Pedro Fortuna, um dos responsáveis pela área Covidografia e co-fundador da Jscrambler. “Publicámos um documento sobre contact tracing e temos muito interesse na sua combinação com rastreamento de sintomas numa única aplicação”, afirmou, defendendo que esta fusão faz todo o sentido para o cidadão que não vai ter duas ou três aplicações.

A visão é partilhada com Miguel Dias Fernandes, Consulting Partner da PWC, que apresentou a app CoronaManager. “Vão existir várias apps de contact tracing e symptom checking, e ter apenas uma componente de rastreamento de Bluetooth será redutor”, defende, explicando que é importante ter à mão os contactos diretos da linha Saúde 24, delegados de saúde e informação georreferenciada para evitar deslocações e aglomerados de pessoas.

“Podemos ter um ecossistema de apps em Portugal”, afirmou Miguel Dias Fernandes, avançando que desta forma estaremos mais preparados como sociedade contra a disseminação da COVID-19.
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A necessidade de ter uma boa aplicação, que se mostre útil para ser descarregada e usada, mantendo todas as regras de segurança e privacidade, foi abordada pelos vários intervenientes nesta conversa promovida pela APDC. As questões da interoperabilidade entre os diferentes sistemas e a existência de um número elevado de utilizadores, que tem sido apontado nos 60% da população, foram também abordados, embora haja quem discorde, como Carlos Lei, da Hypelabs, que está a desenvolver a OK Detect e que considera que independentemente do número de utilizadores estas apps são sempre uma ajuda em relação ao rastreamento de contactos manual.

A aplicação CovidApp partilha informação e recomendações

Pedro Fortuna refere ainda as limitações da utilização do Bluetooth para identificação dos contactos de proximidade. “O Bluetooth pode falhar na identificação da distância”, refere, afirmando que poderá haver um número elevado de falsos positivos em algumas situações onde as pessoas estão a aplicar os cuidados referenciados pela DGS. “Existe uma fórmula de risco que pondera os 15 minutos e 2 metros de proximidade para determinar se deve ser notificado pela aplicação”, explica, dizendo que na Covidografia se defende que a inteligência desta fórmula deve ser alimentada, juntando mais informação sobre o histórico evolutivo, embora isso não resolva ainda outros problemas como o dos assintomáticos. “Mas é um princípio”, afirma.

Apesar destas limitações Pedro Fortuna não acha que se deve optar por soluções de check in em determinados locais, como a se está a fazer em Singapura. “É um mecanismo de controle, entra na esfera da localização das pessoas em que não entrámos até ao momento com estas aplicações [… ] é uma porta que não temos de passar e não vejo justificação suficientemente forte”, afirma.

Também Miguel Dias Fernandes volta a sublinhar a questão da segurança e da privacidade. “Tudo isto é voluntário, o download, apagar os dados”, afirma, explicando que a utilização das aplicações deve ser comunicada aos utilizadores explicando o “porquê” da sua instalação e uso. “Não é com telefonemas e com a recomposição dos últimos 14 dias que vamos conseguir reduzir a disseminação da COVID-19. Vamos beneficiar enquanto sociedade de ter mais informação”, defende, afirmando que o novo normal precisa de ser feito com confiança. “Estes mecanismos são fundamentais para gerirmos este momento, que é difícil, e não interessa qual é a app usada”, remata.

CovidAPP, Covidografia, CoronaManager e OK Detec : 4 apps com percursos e origens diferentes

No leque de aplicações que foram apresentadas nas últimas semanas para combate à COVID-19, duas nasceram no âmbito do no âmbito da iniciava Tech4COVID19, logo em março, a CovidApp e a Covidografia, de que o SAPO TEK já falou. No primeiro caso a app conta com a colaboração da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e controla os sintomas do coronavírus. Francisco Sales, cofundador da Mosano, a empresa que criou a aplicação, explica que o objetivo foi responder às necessidades dos profissionais de saúde e controlar os doentes infetados, trazendo mais segurança ao isolamento.

A CovidApp já teve 37 mil pessoas em simultâneo em observação, dando aos médicos uma perspetiva de evolução e possibilidade de contacto, mas já estão a ser desenhadas as linhas de evolução, que pode passar pelo suporte a wearables e a monitorização de doenças crónicas como Diabetes. A app já está disponível para instalação e ficará também nas lojas de aplicações da Google e Apple “nos próximos dias”, referiu o gestor.

A Covidografia, que nasceu com os mesmos objetivos e na mesma data da iniciativa tech4COVID19, é uma plataforma pretende tirar uma fotografia ao estado e sintomas dos utilizadores e do seu estado de confinamento. Criada por voluntários, com mais de 100 pessoas envolvidas no desenvolvimento, a app foi desenhada em código livre e tem na base preocupações de ética e segurança, contando com cerca de 66 mil utilizadores desde o lançamento a 8 de abril.

A OK Detect (que também se chamava CovidApp mas que mudou de nome) e a CoronaManager tiveram origens diferentes, nascendo como solução para as empresas que querem ajudar a proteger os seus colaboradores.

A OK Detect, desenvolvida pela startup HypeLabs com colaboração de voluntários da tech4COVID19, e já foi testada na Colômbia, mas Carlos Lei Santos, co-fundador e CEO da empresa, afirma que recebeu interesse de organizações de vários países, muito devido à experiência que a startup tem de tecnologia que liga dispositivos sem usar a internet, através de Wi-Fi e Bluetooth. “Colaborámos com governos na América do Sul e aprendemos muito sobre a forma como se faz o match de testes clínicos e de como manter uma app anónima e privada de rastreamento”, explica, dizendo que depois a startup “mudou o chip” e focou o desenvolvimento nas empresas que precisam de soluções de segurança para os colaboradores.

A app está disponível, mas em modo privado, e Carlos Lei Santos refere interesse de organizações no Médio Oriente, EUA e Europa. “Em Portugal ainda não temos mas esperamos que isso mude em breve “, afirmou.

É também pelo lado das empresas que nasceu a CoronaManager, que já foi testada na Alemanha e que está disponível também em português, tendo sido criada pela PwC. O objetivo é ajudar as empresas no regresso à normalidade, controlando as redes de contágio e ajudando os gestores a gerir os espaços e as equipas.

Para além da rastreabilidade de contactos com recurso ao Bluetooth, e registo de sintomas, a CoronaManager fornece também informações úteis para os utilizadores, com base na sua localização, registo e análise de dados de saúde, registo e acesso às licenças para deslocação por motivos profissionais.

A app está disponível para iOS e Android, mas ainda em modo privado.

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