As metas e ambições do Plano de Ação para a Transição Digital estendem-se por 57 medidas, em três eixos, e em entrevista ao SAPO TEK, André de Aragão Azevedo, demorou-se mais no Pilar I, da capacitação das pessoas, onde há várias medidas emblemáticas que já estão no terreno.  E garante que esta aposta tem um potencial relevante de preparar a sociedade para tirar mais partido da dinamização da economia digital, ajudando as empresas e promovendo maior uso dos serviços digitais também no Estado.

“Na capacitação e digitalização das pessoas fizemos uma abordagem por ciclo de vida. Temos a Escola Digital e a população ativa, onde o que estamos a fazer é verdadeiramente disruptivo, e a infoinclusão dos séniores”, afirmou numa entrevista à margem do Portugal Digital Summit.

Nesta área sublinhou o trabalho que está a ser feito com a ANQAP na revisão dos percursos formativos na área da tecnologia, mas também o que está a ser desenvolvido com as universidades. O programa UpSkills, uma das bandeiras do plano de Ação, foi também sublinhado, referindo que se podem formar mais pessoas nas áreas do digital e que isso é um fator de atração muito grande para as empresas que querem vir a fixar-se em Portugal, existindo já manifestações de interesse, como adiantou ao SAPO TEK.

14 novos percursos formativos no catálogo nacional de qualificações

No âmbito do plano estão a ser revisitados os percursos formativos na área da tecnologia, com a ANQEP e “já fizemos uma avaliação detalhada de tudo o que estava no catálogo e do que eram as formações reconhecidas no quadro nacional de competências e envolvemos as empresas para perceber o que tinha de ser atualizado”, afirma. Este trabalho “resultou em 14 novos percursos formativos” que André de Aragão Azevedo afirma que “já incorporam o Estado da Arte dito pelo mercado, destacando as competências do digital”.

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No novo catálogo de formação há agora áreas como Cibersegurança, Gestão de Redes Sociais, UX/UI Design, Business Intelligence e linguagens de programação como JAVA,.NET, Programação Web e Python, incluídas no programa de formação de curta duração Jovem + Digital.

Paralelamente a estrutura de missão Portugal Digital está também a trabalhar com as universidades e politécnicos, em ofertas mais diferenciadas, “queremos quebrar esta separação entre o que é a oferta típica das universidades e politécnicos que não está sempre alinhada com as necessidades do mercado”. Para isso abordaram-se as empresas, no programa UpSkills, desafiadas a dizer as necessidades de recrutamento, e o Estado criou financiamentos próprios para a requalificação, a que se junta formação no emprego, garantindo no final a empregabilidade. “Há aqui uma sinergia e uma aproximação num ciclo que é virtuoso”, afirma, e que não promove apenas a formação mas sim o emprego.

O programa já conta com uma dezena de empresas mas há mais interessadas em se juntar à iniciativa, e o desafio é também para que se fixem no interior criando mais valor. O Fundão é um exemplo, mas há mais em Vila Real, Bragança e outras cidades, com muita sensibilidade das autarquias para um triângulo que é referido como criador de valor.

E também aqui há um modo diferente de atuar, sublinha.

“Quando vamos falar com as empresas levamos o pacote fechado já com a proposta completa”, explica, evitando que as organizações tenham depois de falar individualmente com as autarquias e com a AICEP, por exemplo”.

1.200 mil alunos e professores abrangidos pelo programa Escola digital

Na Escola Digital, André de Aragão Azevedo salienta que o programa foi desenhado para ter de abordagem holística na transformação do posto de trabalho, para alunos e professores. “Não queremos a visão tradicional das aulas TIC, queríamos democratizar o acesso à digitalização em contexto escolar e isso implica tirar partido de um conjunto de ferramentas que tinham de estar, na prática, disponibilizadas para o conjunto da comunidade, até porque um dos desafios que a pandemia pôs a nu foi o tema da vulnerabilidade económica e social de algumas franjas da população que quando se viram confrontadas com a necessidade de terem aulas à distância não tinham os meios para isso acontecer de forma natural e eficaz”, afirma.

A universalização “era ponto de honra”, para “esbater desigualdades, que foi sempre um papel da escola”, justifica ainda.
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A opção por computadores portáteis foi também justificada, já que não se pretendia restringir os alunos a um local fixo. “Não queríamos restringir a aprendizagem ao contexto escolar, é um conceito que está ultrapassado, já não trabalhamos assim, já não vivemos assim, e portanto o aluno pode trabalhar em casa, no ATL em cada dos avós, na biblioteca, e vai poder fazer esse trabalho porque tem um posto móvel de acesso ao digital”.

A operacionalização está nas mãos do ministério da Educação, que ontem mesmo divulgou mais detalhes sobre o procedimento de entrega dos computadores aos alunos, em regime de empréstimo, e o papel de cada uma das entidades envolvidas, incluindo os agrupamentos escolares e escolas, e os encarregados de educação.

A necessidade de reforçar a capacitação digital volta a ser sublinhada pelo secretário de Estado, que admite que esta área “não foi tão ambiciosa em experiências anteriores” e que nesta iniciativa se prevê um programa transversal para alunos e professores.

Reconhecendo que pode haver alguns atrasos na chegada dos equipamentos ao mercado, em portáteis e hotspots, devido a condicionantes do mercado internacional e da contratação pública, André de Aragão Azevedo lembra que Portugal não foi o único país a reforçar esta área, sobretudo devido à pressão da COVID-19. Mesmo assim afirma que “somos dos que temos um programa mais ambicioso, com quase 1,2 milhões de pessoas impactadas, entre alunos e professores, ou seja, 1 milhão e 30 mil alunos e 120 mil professores”.

Questionado sobre se este se poderia transformar num novo programa Magalhães, André de Aragão Azevedo afirma que “fico nervoso quando me falam do receio do Magalhães” e lembra que o programa “teve um lastro e um legado muito positivo”.

Os problemas que foram identificados são reconhecidos pelo secretário de Estado, que garante que não os  quer ver repetidos, especialmente na menor ambição da capacitação de alunos e professores e nos conteúdos educativos. “Aprendemos muito”, afirma, lembrando também que um dos problemas deste programa foi o facto de ter sido descontinuado, perdendo por isso a dinâmica que estava a ser criada.

Reduzir a infoexclusão com competências digitais para 1 milhão de séniores

Esta é também uma das áreas de que André Aragão de Azevedo fala com entusiasmo, e que acredita que dará uma grande ajuda na literacia digital e na redução da infoexclusão, com a formação em competências básicas. A medida da Inclusão Digital está a ser desenvolvida com o programa MUDA e “quer capacitar um milhão de portugueses que nunca utilizaram a internet”, um número que corresponde a cerca de 20% da população.

“Temos de ir à procura deles, usar a capacidade dos nossos jovens e das escolas, onde temos uma rede com grande granularidade e ir atrás dessas pessoas para as tornar minimamente operantes e enquadrá-las no mundo digital”, afirma, falando de um “shot” rápido de formação.

O secretário de Estado admite que “é muito ambicioso” mas que o programa já foi apresentado à União Europeia e foi muito bem-recebido, pela inovação na operação mas também no financiamento, que está ligado aos resultados. “Só financiaremos com fundos europeus em função dos resultados atingidos e que são escrutináveis e auditáveis através de uma plataforma” onde tudo pode ser monitorizado com ferramentas de acompanhamento.

Este artigo faz parte de um dossier dedicado ao Plano de Ação para a Transição Digital que o SAPO TEK está a publicar ao longo desta semana.

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