Por Gisela Costa Rosado (*)

A notícia de que foi permitida a entrada de influencers nas escolas com mensagens sexuais e misóginas, veio chocar e preocupar famílias, levando o Ministério da Educação a instaurar um inquérito para investigar alguns estabelecimentos de ensino. Parecem todos surpresos, mas é preciso que se perceba que estes influencers e outros não entraram apenas em 79 escolas.

Eles entram todos os dias, pelas mãos dos próprios alunos, em TODAS as escolas onde não são proibidos os smartphones. Entram nas escolas, mas também nas casas de muitas famílias, algumas agora preocupadas com este caso. Alguns destes alunos não só estão expostos, como expõem outros a conteúdos de violência extrema, homofóbicos, misóginos, pedófilos e pornográficos. Essa exposição ocorre constantemente nas escolas e desde tenras idades.

Segundo vários relatos que são enviados para o Movimento Menos Ecrãs, Mais Vida, nas várias escolas espalhadas pelo país, alunos a quem é permitido o uso de smartphones veem nos recreios e até nas salas de aula, pornografia que mostram aos mais novos, iniciando-os num novo mundo que, de tão bizarro, lhes desperta curiosidade e que depois eles autonomamente começam a explorar. Aos miúdos que ainda não têm smartphone, chegam a cobrar-lhes dinheiro para mostrar vídeos. Com ou sem smartphone próprio, crianças de apenas 10, 11 anos..., que nem na puberdade ainda entraram, são na generalidade das escolas portuguesas, brindadas com uma exposição precoce, inadequada e nociva.

Isto acontece só nas escolas? Evidentemente que não é só, mas trata-se de um local privilegiado, onde crianças e jovens passam a maior parte do seu dia. Este problema do acesso a conteúdos inadequados através dos smartphones (não só, mas é o meio principal) deve ser abordado no sentido de haver uma responsabilidade partilhada. Uma responsabilidade das famílias, mas também das escolas e das autoridades de saúde, para proteger crianças e jovens.

A escola deve ser uma aliada na educação parental. Acreditamos que se deve informar, sensibilizar, alertar, mas não se educa sem regras e não se ensina, por exemplo, sobre os malefícios do tabaco ou das drogas ao mesmo tempo que se permite que andem com maços e isqueiros nas mãos. Tal como fez quando proibiu o tabaco e a venda de refrigerantes e outros alimentos prejudiciais à saúde, nas escolas, espera-se que o governo intervenha na proibição dos smartphones nas escolas.

A medida aplicada só até ao 6º ano é pouco ambiciosa, difícil de se fazer cumprir num espaço partilhado por mais alunos de outros anos e nada igualitária. Os alunos não só estão expostos a conteúdos que os influenciam de forma negativa, como estão também sujeitos à captação e divulgação de imagens sem o seu consentimento.

São cada vez mais os países na Europa e no mundo que implementaram esta medida de proteção, muitos até ao 12º ano, e os resultados aferidos nestas escolas, incluindo em Portugal, são positivos, revelando um aumento na socialização, melhoria na disciplina, redução do cyberbullying e maior foco nas atividades letivas.

Atualmente a escola é o único espaço que muitos miúdos têm para estarem juntos, já que hoje em dia não estão nas ruas a brincar e a socializar. Somos mães de menores, a viver as mesmas preocupações que muitas famílias, mas também professoras a lecionar em diferentes níveis de ensino, e assistimos diariamente a alunos encostados a vários cantos da escola mergulhados nos ecrãs. Alguns lá vão passeando, correndo ou brincando, incentivados pela minoria que não tem smartphones, mas muitos com pausas constantes na brincadeira para espreitar o mundo digital, altamente atraente e viciante.

A proibição nas escolas é acima de tudo uma forma de proteção, com regras que deveriam ser iguais para todos, passando a mensagem para as famílias de que há riscos associados ao uso dos smartphones. Esperamos que com a proibição nas escolas se inicie um caminho para uma mudança de mentalidades e que a pressão social e o medo de exclusão deixem de ser um motivo para se oferecer um smartphone a um filho, que na prática ainda não tem idade para lidar com grande parte dos conteúdos que irá encontrar.

(*)  Co-fundadora do Movimento Menos Ecrãs, Mais Vida