A 27 de junho de 2020 Portugal formaliza a assinatura do acordo de adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO), uma data que foi assinalada com a reverência adequada e que é um marco no desenvolvimento da astronomia e da astrofísica em Portugal. Na verdade o processo tinha começado mais cedo, ainda na década de 80, com o tratado de pré-adesão preparado por Teresa Lago, que deu a Portugal uma década para crescer nesta área, onde se começou praticamente do zero, explicou ao SAPO TEK José Afonso, coordenador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa).

“Este foi um processo talvez único em Portugal e bastante interessante”, adianta em entrevista, afirmando que foi “uma das poucas vezes em que a visão estratégica prevaleceu”. O conhecimento dos portugueses sobre os céus foi um fator chave nos descobrimentos e no final do século XIX voltaram a haver referências importantes com o Observatório Astronómico de Lisboa, mas no século XX a ciência desapareceu, e quando chegámos à astrofísica, na segunda parte do sec XX, não existia uma comunidade de investigadores e cientistas que tivesse acompanhado a evolução. Só na década de 80 surgem os primeiros formados em astrofísica no estrangeiro e com eles a ideia de que Portugal deveria associar-se ao Observatório Europeu do Sul, que estava a desenvolver os grandes telescópios no Chile.

Com o tratado de pré-adesão foi dado o impulso importante para a criação da comunidade, com a formação de pessoas, e “na década de 90 estamos a crescer tremendamente em astrofísica na investigação do universo”. O desenvolvimento da formação é reconhecido como um elemento importante, mas também a visão de associar Portugal ás instituições internacionais, como o ESO, o que viria a acontecer e, 2000. “Aproveitámos este embalo muito grande da maior dedicação do país à Ciência e isso levou a um crescimento admirável na astrofísica”, sublinha José Afonso.

Na primeira década de 2000 esta é “uma das áreas portuguesas com maior impacto internacional”, onde uma comunidade ainda muito jovem faz crescer equipas e consegue um reconhecimento grande das publicações, afirma José Afonso.

Hoje a astronomia e astrofísica é ainda uma área de nicho, com uma a duas centenas de investigadores, mas “conseguiu-se criar massa crítica em alguns dos tópicos relevantes em investigação do universo, e há áreas onde lideramos esforço, como a evolução de galáxias, exoplanetas, estrutura do universo, formação e evolução de estrelas, mas também temos um papel muito importante de desenvolvimento de tecnologia para investigação astronómica”, sublinha o investigador. É o caso do desenvolvimento do  telescópio da ESA que vai tirar uma radiografia ao Universo leva tecnologia “made in PT” a bordo. O Advanced Telescope for High-Energy Astrophysics, ou Athena, da ESA tem data de lançamento prevista para 2031 e vai ter um sistema óptico de precisão cuja conceção e desenho estão a ser liderados por Portugal, através do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

Entre as metas alcançadas José Afonso refere a instalação do VLC, onde Portugal tem tido um papel importante também para o desenvolvimento de investigação em empresas portuguesas que participam nestes projetos. Esta ligação à área privada é um dos benefícios do trabalho feito na comunidade académica e o investigador lembra que para fazer investigação de ponta não basta a ciência básica, mas também é preciso desenvolver instrumentos e construí-los, o que traz valor económico. Este é um desenvolvimento de equipamento de vanguarda tecnológico, que não tem retorno imediato mas que traz a capacidade de permitir depois abrir portas a outras áreas.

“Muitas tecnologias que conhecemos no dia a dia tiveram origem no desenvolvimento da astrofísica”, lembra José Afonso, apontando o Wi-Fi, imagiologia médica, os detetores de raio x nos aeroportos e até os CCD das máquinas fotográficas. “O software para reconstruir uma imagem no céu tem a mesma origem que o que é usado para uma imagem médica de uma TAC”, afirma.

Portugueses mais envolvidos na astronomia

Mesmo com uma comunidade científica pequena a divulgação do trabalho feito na astronomia tem sido uma das metas, e os portugueses mostram um interesse crescente nestes temas. O IAstro está focado nesta comunicação e José Afonso fiz que esta “é uma das ciências com mais capacidade de se ligar com cada um de nós”.

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“Ficamos fascinados com as imagens do Hubble, a ideia de criação de planetas e estrelas, o futuro do Sol”, explica, adiantando que as imagens são fáceis de compreender e com relativa facilidade se explica o que se vê. “Este interesse em astrofísica deve ser aproveitado. E essa é uma tentativa de colocar a investigação ao alcance de todos”, afirma, dizendo que hoje temos a capacidade e preocupação de tornar a ciência acessível, temos conseguido fazê-lo. Será sempre uma das áreas mais abertas ao público, puxando pelo fascínio do universo.

Astronomia em transformação com a tecnologia

Tal como a astrofísica ajudou a transformar a astronomia no século XX, também a tecnologia está a fazer mudanças revelantes ao trabalho dos investigadores. “estamos em transformação”, afirma José Afonso, adiantando que esta é uma das ciências mais baseadas em dados. “O astrónomo é um cientista de dados”, explica, afirmando que atualmente existe acesso a melhores e maiores quantidades de dados a explorar e que há uns anos a preocupação era mais com a forma de explorar o universo.

“Estamos a lidar com telescópios, que estão a começar a funcionar, que não vão poder guardar todas as observações e as processar”, justifica o coordenador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, dizendo que é importante perceber o que deve ser preservado e saber explorar os arquivos para “tirar mais sumo” da informação que vai sendo recolhida.

A inteligência artificial e os algoritmos de machine learning estão em grande expansão, e em muitos projetos não há ainda capacidade computacional para tratar os dados.

E o que esperar nestas áreas para a próxima década? “Para nós essa não é uma pergunta com rasteira. As bases para os próximos 10 a 20 anos estão a ser desenvolvidas”, afirma José Afonso que diz que a principal fragilidade desta área não é a necessidade de financiamento mas a estabilidade. “É possível com pouco financiamento, com garantia de estabilidade, desenvolver instrumentos que vão ser lançados em 2030”, explica, apontando como exemplo a missão Euclid que está a ser desenvolvida com a ESA e que estudar a estrutura do universo, medir a matéria negra e a energia negra, mas também a sonda Plato a lançar em 2026, que vai fotografar estrelas e exoplanetas, e a Ariel, a lançar em 2028 para estudar as atmosferas dos exoplanetas.

Com o ESO existe um plano completo para os próximos 20 anos, com os instrumentos que estão a ser instalados e com o futuro telescópio do Chile, o ELT (Extremely Large Telescope) que tem 39 metros de diâmetro e maior capacidade observação. Portugal está a desenvolver instrumentos para usar no ELT, como o METIS, que vai tirar partido do espelho primário gigante do telescópio para estudar uma enorme quantidade de aspectos, desde objetos do nosso Sistema Solar até galáxias ativas distantes.

“Até 2035 já sabemos onde vamos pôr o nosso esforço”, garante, embora admita que podem surgir novas oportunidades, com instrumentos de desenvolvimento rápido, mas sublinhando porém que “é importante estratégias que possam cobrir a próxima década e duas décadas, senão vamos perder investimento de recursos humanos e capacidade”.

Para continuar a desenvolver esta área José Afonso sublinha a relevância da formação, aos vários níveis académicos, da licenciatura, mestrado e doutoramento, admitindo que é importante garantir que os melhores possam ficar no país e que o investimento sustente as próximas gerações.

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