As notícias as asteroides em aproximação à Terra têm-se multiplicado, mas um dos mais recentes objetos identificados pode não ser o que parece, segundo os peritos da NASA. E está a gerar entusiasmo entre a comunidade que admite ter descoberto uma "relíquia" das primeiras missões da NASA à Lua.

"Estou bastante entusiasmado com isto", afirmou o perito em asteroides da agência espacial norte-americana, Paul Chodas, em declarações à agência The Associated Press (AP). "É um ‘hobby’ que tenho, encontrar um objeto destes e procurar a sua origem, é algo que faço já há décadas", disse.

Paul Chodas especula que o “asteroide” 2020 SO, como é formalmente conhecido, poderá ser, na verdade, a parte superior do foguetão Centauro, que em 1966 lançou, com sucesso, o módulo da NASA Surveyor 2 numa missão à Lua. O módulo acabou por se despenhar na Lua, devido a uma falha num dos propulsores, e o foguetão entrou na órbita do Sol, transformando-se em lixo espacial, nunca mais tendo sido visto — pelo menos até agora.

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No mês passado, enquanto procurava asteroides potencialmente perigosos em rota de aproximação à Terra, um telescópio no Havai descobriu um objeto misterioso a aproximar-se da órbita do planeta.

O objeto foi imediatamente introduzido no registo do International Astronomical Union’s Minor Planet Center (Centro de Planetas Menores) relativo a asteroides e cometas encontrados sistema solar e que conta já com perto de um milhão de astros registados.

Com base na sua luminosidade, estima-se que o objeto tem cerca de oito metros, o que coincide com a dimensão do Centauro, que teria menos de 10 metros de comprimento, incluindo a extremidade do motor, e três metros de diâmetro.

O que começou por chamar a atenção de Paul Chodas, que é diretor do Centro para o Estudo de Objetos Próximos da Terra do Jet Propulsion Laboratory da NASA, no sul da Califórnia, foi que a órbita quase circular deste objeto em torno do Sol é muito similar à da Terra, o que é pouco comum num asteroide.

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O facto de o objeto estar no mesmo plano da Terra, e não inclinado para cima ou para baixo, foi outro sinal de alerta, já que os asteroides normalmente surgem em ângulos mais irregulares. Finalmente, está a aproximar-se da Terra a 2.400 quilómetros por hora, o que é uma velocidade reduzida para um asteroide.

À medida que o objeto se aproxima, os astrónomos deverão conseguir traçar melhor a sua órbita e determinar em que medida está a ser impulsionado pela radiação e pelos efeitos térmicos da luz do Sol.

Se se tratar do velho foguetão Centauro — que, no fundo, não passa de uma leve lata vazia — irá movimentar-se de forma diferente do que se moveria uma pesada rocha espacial, muito menos suscetível a forças externas. Esta é, aliás, a forma como os astrónomos normalmente fazem a distinção entre asteroides e lixo espacial, como restos de foguetões, já que visualmente ambos não passam, basicamente, de pontos em movimento no espaço.

Segundo Paul Chodas, existem provavelmente dúzias de falsos asteroides registados, mas os seus movimentos são demasiado imprecisos ou complexos para que possa ser confirmada a sua natureza.

Em 1991, por exemplo, um misterioso objeto foi identificado por Chodas e por outros astrónomos como um asteroide e não como um detrito espacial, apesar de a sua órbita em torno do Sol ser semelhante à da Terra.

Em 2002, Chodas encontrou mesmo o que acredita que era uma parte restante do foguetão Saturno V, do módulo Apollo 12, lançado em 1969 e que foi o segundo módulo da NASA a aterrar na lua.

O astrónomo admite que as provas eram circunstanciais, devido à órbita errática deste objeto ao longo de um ano em torno da Terra. Acabou por nunca ser classificado como um asteroide e deixou a órbita da Terra em 2003.

A rota do objeto agora detetado é, contudo, muito mais direta e estável, o que vem reforçar a teoria do diretor do Centro para o Estudo de Objetos Próximos da Terra do Jet Propulsion Laboratory da NASA.

“Posso estar enganado. Não quero parecer demasiado confiante – afirma o astrónomo da NASA – mas é a primeira vez, na minha perspetiva, em que tudo parece corresponder a um lançamento efetivamente conhecido”.

E, neste caso específico, Paul Chodas regista com agrado o facto de se tratar de uma missão que ele acompanhou em 1966, quando era, na altura, um adolescente a viver no Canadá.

Dados à espera de validação

A “caçadora de asteroides” Carrie Nugent, do Olin College of Engineering em Needham, no Massachusetts, considera que a conclusão a que chegou Paul Chodas é “válida” e baseada em provas sólidas.

A autora do livro “Asteroid Hunters” (“Caçadores de Asteroides”), lançado em 2017, admite que “a existência de dados adicionais seria útil para se ter mais certezas” e garante que “os caçadores de asteroides de todo o mundo vão continuar a observar este objeto para reunirem mais informações, confessando-se “ansiosa pelos próximos desenvolvimentos”.

Já Jonathan McDowell, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, refere que tem havido “inúmeros incidentes embaraçosos com objetos em órbita, que são inicialmente catalogados como asteroides e só depois se percebe que eram objetos artificiais”.

O facto é que raramente são casos óbvios, sem margens para dúvidas.

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No ano passado, o astrónomo amador britânico Nick Howes anunciou que um asteroide na órbita solar era, provavelmente, o módulo solar deixado para trás pela Apollo 10, da NASA, um primeiro ensaio da “aterragem” na lua da Apollo 11. Embora admitam que este objeto é provavelmente artificial, Chodas e outros especialistas estão, contudo, céticos quanto a esta conclusão.

Para Nick Howes, este ceticismo é algo de positivo: “Esperamos que leve a mais observações quando voltar a estar mais próximo de nós”, no final da década de 2030, disse.

O objeto que agora está a captar toda a atenção de Paul Chodas passou pela Terra nas órbitas em torno do sol em 1984 e 2002, mas os oito milhões de quilómetros de distância a que então estava tornavam-no demasiado indistinto.

Paul Chodas prevê agora que o objeto permaneça durante cerca de quatro meses em movimento circulares em torno da Terra e entre na órbita terrestre em meados de novembro, para depois retomar a sua órbita em torno do Sol em março.

Quanto à possibilidade de este objeto vir a colidir com a Terra, o astrónomo da NASA está muito cético que tal possa acontecer. “Pelo menos não desta vez”, antecipa.

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