O isolamento imposto para combater o COVID-19 afetou as aulas neste final de segundo período, impossibilitando muitos dos alunos a ter as melhores condições de acesso ao ensino online. Os agrupamentos de escolas e o Ministério da Educação (ME) assumiram como prioridade ligar todos os alunos à escola, disponibilizando conteúdos digitais, plataformas, formação e princípios orientadores para o ensino online.

No entanto, há muitas crianças com dificuldades na ligação online que está a suscitar o seu isolamento, sobretudo as mais vulneráveis. O ME sublinha ainda que há fortes probabilidades de insucesso, devido a estes alunos não acompanharem as aprendizagens ou terem dificuldade em participar, com qualidade, nas atividades letivas remotas que estão a ser propostas.

Para mitigar esse problema, o ME destaca algumas medidas, entre elas o levantamento pormenorizado, em cada escola, do número de alunos que não têm disponível qualquer equipamento em casa ou acesso à internet. É ainda incentivado, sempre que necessário e viável, centralizar e fornecer a parceiros do Ministério e outras entidades, as indicações sobre a necessidade de apoio.

O ME refere ainda que devem ser listadas as prioridades na concessão de meios tendo em vista a urgência e graus de vulnerabilidade dos alunos. E os operadores de telecomunicações e empresas de hardware devem ser contactados para explorar as melhores soluções e resposta rápida aos problemas locais. Será dado apoio às escolas para a implementação de soluções locais, seja de iniciativa dos agrupamentos, dos municípios ou associações de pais.

Estas iniciativas não devem extinguir-se nas propostas do Ministério da Educação, que reforça a mobilização nacional para manter os alunos ligados à escola. E isso tem mesmo acontecido um pouco por todo o país, levando pais, professores e alunos a organizarem-se para encontrar os alunos excluídos, aqueles que não têm os equipamentos necessários, assim como os que têm aproveitado o estado atual para se afastarem ainda mais da escola.

Segundo refere a Lusa, muitos alunos faltaram às aulas online na primeira semana, mas a comunidade escolar tem feito um esforço para os trazer de volta. A mãe de um aluno do 1º ciclo terá mesmo recebido mails da professora a pedir ajuda para encontrar alguns dos alunos. Todos têm sido convocados a ajudar para manter a “normalidade” nesta nova realidade de isolamento. Os alunos também têm abraçado a missão de encontrar os seus colegas, pedindo nas suas redes sociais contactos a amigos comuns, sobretudo daqueles que não têm telemóvel ou computador.

Foi dado o exemplo de uma criança que vivia numa instituição de acolhimento, que foi identificada, passando a receber inicialmente as fichas através de um telemóvel de uma colega, mas depois passou a usar o computador da instituição para acompanhar as aulas.

De recordar que segundo um estudo realizado por Arlindo Ferreira, especialista em estatísticas da Educação, publicado no seu blog, cerca de 20% dos alunos inquiridos não têm computador em casa, dificultando a missão de ter aulas em casa. O acesso online em casa surge como outro problema. De acordo com dados de 2019 do Instituto Nacional de Estatística avançados pela Lusa, mais de 5% dos alunos com menos de 15 anos viviam em casas sem Internet. Já no que toca aos estudantes com mais de 16 anos, 0,4% não tinham acesso à Internet em casa. Estima-se que 50.000 a 70.000 alunos não possuam nenhum computador em casa. E há muitas famílias que apenas têm um computador por agregado, e que este tem de ser distribuído entre os seus membros, o que dificulta o acesso ao ensino.

Segundo declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional de Diretores e Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, confirmou que o Ministério da Educação está a fazer o levantamento dos alunos sem computadores e internet, salientando que é importante passar da teoria à prática. Refere ainda que "o digital não é um luxo, mas sim uma necessidade", no que diz respeito ao acompanhamento das aulas online. Considerando que hoje começam oficialmente as férias da Páscoa, acredita que para o terceiro período, a começar daqui a duas semanas, haverá menos alunos excluídos.

Ainda nos relatos que chegam de vários pontos do país, houve alunos que afirmaram não conseguir aceder às aulas por não terem dados móveis, mas os encarregados de educação e docentes recordam que as principais operadoras ofereceram 10 GB de dados a todos os seus clientes. Mas os professores que estão a dar aulas online já deixaram o aviso de que se não comparecerem vão ter falta. Como relatado à Lusa um professor, “podem aparecer despenteados, de pijama e até sem lavar os dentes. Mas têm de aparecer”, reforçando o papel dos pais em obrigar os seus filhos a participarem nas atividades letivas propostas, não só a ligar computadores, mas a verificar o que estão a fazer com os mesmos, tal como se os levassem à escola presencialmente.

De considerar ainda que há professores que podem não ter todo o equipamento que necessitam para dar as aulas, enfrentando os mesmos problemas que os alunos. E nesse sentido, também é necessário fazer o levantamento das suas necessidades. Esse é um dos pontos do roteiro que o Ministério da Educação emitiu, com os princípios orientadores para a implementação do Ensino à Distância (E@D) nas escolas.

O ME reforça o papel das lideranças intermédias na definição e concretização das orientações pedagógicas, destacando os diretores de turma que devem organizar e gerir o trabalho nas suas equipas, num contexto semanal. Este centraliza ainda a função de distribuir as tarefas aos alunos e o contacto com os pais e encarregados de educação.

O modelo E@D necessita também definir o horário semanal a cumprir pelos alunos, num contexto fixo ou flexível, incluindo a pausa e a definição de tempo para cada disciplina.

Há ainda a salientar que com as escolas e universidades fechadas, as plataformas online são uma nova alternativa para professores e alunos. Nesse sentido, o ME colocou à disposição das escolas uma “brigada” de apoio para apoiar os professores e diretores, composta por mais de 100 profissionais. A equipa tem como função garantir um acompanhamento de proximidade às escolas, contribuindo para recolher boas práticas, mas também constrangimentos sentidos. Desta forma, pretende-se apoiar as escolas de forma articulada com os serviços centrais do Ministério da Educação.

Nota de redação: Artigo atualizado com declarações de Filinto Lima sobre o levantamento feito pelo ME dos alunos sem computadores e internet.

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