A rede de incubadoras da Agência Espacial Europeia em Portugal cresceu no último ano de três para 15. O salto traduz o sucesso da primeira edição do programa para startups da Agência Espacial Europeia a nível local. Desde 2015, a iniciativa apoiou o nascimento e os primeiros passos de trinta projetos nos mais diversos sectores, com um denominador comum: partem de tecnologias do Espaço para criar produtos e serviços na Terra, ou vice-versa. 

A Findster, a startup portuguesa que criou o localizador GPS para animais de estimação que já foi top de vendas na Amazon, passou pela rede ESA BIC. Por lá também passou a Theia, que desenvolveu uma solução para monitorizar o estado de conservação de património cultural, histórico e arqueológico, a partir de dados de satélite. Ou a Tesselo, que também usa as imagens do programa europeu de observação da Terra, o Copernicus, mas neste caso para identificar alterações ambientais e antecipar riscos. Como? Combinando os dados de satélite com os registos de alterações ambientais documentadas pela NASA nos últimos 40 anos e criando modelos, a partir de inteligência artificial. Esses modelos são a base para soluções de mapeamento úteis nos mais diversos domínios, como a agricultura, a prevenção de fogos ou o planeamento urbano. 

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Mas esta é apenas uma amostra dos caminhos que a transferência de tecnologia Espaço/Terra tem seguido nestes centros de incubação, porque o espectro é mais largo. Há projetos em dois grandes grupos: upstream - o chamado New Space ou tecnologia para o Espaço - e downstream, tecnologia que foi desenvolvida para o Espaço e é usada na Terra. 

Do Espaço para a Terra

“No downstream há três áreas onde os projetos se destacam, muito à boleia de dois grandes programas europeus, o Copernicus (observação da Terra) e o Galileo - navegação por satélite e geolocalização”, explica Carlos Cerqueira (na foto), diretor de inovação do Instituto Pedro Nunes, que coordena a rede ESA BIC Portugal, e dirige a ESA Space Solutions Portugal. 

Neste universo, a maioria das startups que já passaram pela rede ESA BIC em Portugal têm desenvolvido soluções que cabem nas seguintes áreas: cidades inteligentes, monitorização de infraestruturas, apoio à manutenção de infraestruturas, logística e gestão de tráfego, prevenção de fogos, agricultura de precisão ou saúde. 

Tek Carlos Cerqueira - IPN
créditos: IPN

No domínio do New Space, a prevalência de projetos é menor, representando cerca de 20% do total. É reconhecidamente, de todas, a área onde existem mais barreiras à entrada, seja no que se refere ao investimento necessário, ao tempo de desenvolvimento dos projetos, ou às ligações que é preciso ter a cadeias de valor internacionais, reconhece Carlos Cerqueira. Mas há exemplos. 

Delox: sistema de descontaminação inovador chega ao mercado no próximo ano, com o Espaço no horizonte

A Delox foi uma das startups incubadas pela ESA com tecnologia que pode ser usada no Espaço e na Terra e já explorou os dois caminhos. A empresa desenvolveu um sistema de biodescontaminação portátil que pode vir a ser usado numa futura missão a Marte, para garantir que não comprometemos a busca de vestígios de vida original, com micro-organismos que levamos da Terra, nem trazemos de volta outros, que coloquem em risco o ecossistema. 

Chegou a fazer um piloto num balão atmosférico e validou a eficácia da solução de descontaminação a 30 quilómetros de altitude e com -50ºC. Há-de trilhar o resto do caminho para chegar ao Espaço, mas concluiu que ainda não é o momento certo.

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“Acreditamos que a médio-longo prazo vão surgir necessidades para as quais queríamos ter um produto preparado desde já e que rapidamente depois pudesse ser qualificado e levado para o Espaço, se a oportunidade se confirmasse”, explica Fadhil Musa, CEO e co-fundador do spin-off da Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa. 

Enquanto a oportunidade não chega, a Delox tem explorado outros caminhos para aplicar os sete anos de investigação acumulados. Recentemente trabalhou com o Exército português no desenvolvimento de uma câmara de descontaminação para a reutilização de máscaras de proteção à Covid-19. Fez um teste de campo com a Germano de Sousa para descontaminar um termociclador - o equipamento que realiza os testes PCR à Covid-19 - e diminuir os falsos positivos e testes inconclusivos, por contaminação de material genético. 

À lista foi somando vários outros projetos, que serviram para validar a tecnologia em diferentes contextos e preparar o passo seguinte: lançar uma oferta comercial no próximo ano. 

Antes vai angariar capital, pré-industrializar a solução inovadora que criou, montar pilotos, iniciar a produção e fazer a certificação (primeiro nos Estados Unidos, onde o processo é mais rápido). Vai estrear-se com uma oferta direcionada à saúde, indústria farmacêutica, indústria 4.0 e biodefesa. O Espaço continua na agenda.  

Exportações representam um terço do negócio das incubadas pela ESA

A Delox, que entretanto já recebeu várias distinções, integrou a primeira edição do programa de incubação da ESA, que terminou com balanço positivo e deu o mote para uma segunda edição reforçada e de âmbito nacional, com incubadoras em todas as regiões do país, do continente às ilhas. 

O número de projetos apoiados também vai crescer, e entre 2020 e 2024 o plano é chegar a 60 startups. A apoio a cada startup mantém-se nos 50 mil euros, dois anos de incubação e acesso a um conjunto de serviços técnicos. Em 2020 foram selecionadas e já estão a trabalhar, as primeiras 12 desta 2ª edição. A seleção das próximas 12 já está em marcha. 

As startups que passaram pela rede de incubadoras da ESA em Portugal, na primeira edição do programa, geraram em 2019 um volume de negócios combinado de 12 milhões de euros. Cerca de 30% deste valor são exportações. Em termos acumulados, criaram 120 empregos qualificados. O investimento nacional no programa fixou-se em 1,2 milhões de euros, destaca Carlos Sequeira, para sublinhar que o retorno é claro e que, por isso mesmo, a expectativa nesta nova edição do programa também é elevada. 

A rede europeia de incubadoras ESA BIC conta agora com mais de 700 startups, distribuídas por 20 centros espalhados, em mais de 60 cidades, de 17 países europeus.

Esta é apenas uma das vertentes de investimento da Agência Espacial Europeia na inovação feita em Portugal, há outras iniciativas, como o programa Spark4Business, com candidaturas abertas neste momento.  

Este artigo integra um especial sobre a indústria espacial em Portugal, onde também pode ler: 

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