Escolas fechadas ou a “meio gás” e computadores e televisões ligados mais do que nunca. Foi esta a realidade do ensino em Portugal nos últimos meses do ano letivo 2019/2020, com a COVID-19 a não dar tréguas. Passados mais de quatro meses depois do encerramento de todas as escolas, e com algumas mudanças de estratégia por parte do Governo pelo meio, o SAPO TeK conversou com duas professoras para perceber o impacto desta realidade no dia-a-dia de quem tem por missão ensinar, seja dentro ou fora das escolas.

No início de março deste ano, com a pandemia a tomar proporções mais preocupantes, o Governo decretou o dia 16 de março como a data oficial do encerramento das escolas em Portugal. Em termos práticos, esta decisão obrigou professores, pais e docentes a estarem confinados em casa, numa realidade bastante diferente à habitual, com a Telescola a ser lançada no final de abril. Mudar os métodos de ensino e de avaliação, ver os alunos através de ecrãs e gerir todos os novos processos foram novos desafios a que os docentes dos vários graus de ensino tiveram de se adaptar.

Os desafios com o novo método de ensino

Do Seixal, em Setúbal, onde é professora do 2º ano de escolaridade da Escola Básica Nun'Álvares, até Odivelas, onde mora, o dia-a-dia de Cláudia Alves mudou totalmente com a pandemia de COVID-19. Também ela com dois filhos em casa, o mais velho no secundário, a professora contou ao SAPO TeK a sua experiência, revelando que realizar a avaliação à distância foi particularmente desafiante.

“Visto que trabalho com alunos ainda muito dependentes do professor, com sete a oito anos, e num bairro socialmente desfavorecido, foi muito difícil fazer essa avaliação”. Para Cláudia Alves, à distância é muito complicado compreender se o trabalho é feito pelo aluno, mesmo com ajuda, ou pelos pais. “Apenas nos casos mais ´gritantes´ é que foi possível saber se houve algum tipo de evolução ou retrocesso”, considera.

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Partindo mais para Sul, e num contexto de ensino universitário, Margarida Pereira fala sobre as principais dificuldades em relação ao método de avaliação. “Compatibilizar o controlo dos alunos que estão a realizar as avaliações à distância com a da legislação sobre proteção de dados” foi uma das questões destacadas pela docente da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), com formação em Agronomia e doutorada em Proteção das Plantas.

A verdade é que a questão da cibersegurança foi também um assunto bastante falado durante o ensino online a 100%. Usado por muitos alunos portugueses, o Zoom foi notícia, não só pela sua popularidade e pelas vantagens, mas também pelas falhas de segurança, inicialmente através de um aviso do FBI.

Em Portugal, e em meados de abril, um jovem de 20 anos de idade chegou mesmo a entrar em sessões no Zoom sem autorização, "com o único propósito de perturbar o seu normal funcionamento", explicou a Polícia Judiciária na altura. No mesmo dia, a Fenprof divulgou um comunicado a pedir mais segurança, referindo que ia avançar com uma queixa à Procuradoria Geral da República. Ainda assim, a docente do IPBeja garante que os programas e as plataformas que utilizou corresponderam, de uma forma geral, ao que pretendia, recorrendo ao Zoom, com uma conta através da Fundação de Ciências e Tecnologia, o que permitia reuniões e aulas sem qualquer tempo limite, e a plataforma Moodle do Instituto.

Margarida Pereira garante ainda que outra principal dificuldade sentida passou por conseguir certificar-se que são os alunos inscritos que estavam, efetivamente, a realizar, a prova. Neste contexto, a opção foi, na maioria dos casos, “trabalhos com apresentações à distância e por provas escritas com consulta”.

Falta de recursos: uma questão preocupante?

A maior dificuldade para Cláudia Alves foi, no entanto, a falta de recursos. “Numa turma com 20 alunos, sete tinham computador e Internet e cerca de sete ou oito acesso de à internet através dos telemóveis dos pais”, conta ao SAPO TeK. A própria docente assume que usou o seu computador pessoal. Por outro lado, a falta de conhecimentos informáticos e académicos também foi um entrave nesta nova realidade de ensino a distância.

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Num contexto diferente de Cláudia Alves, Margarida Pereira explica que utilizou um computador da instituição adquirido com um projeto. Para além disso, recorreu ainda a um computador pessoal.

A falta de acesso a equipamentos e à Internet foi uma das principais questões levantadas com o ensino a distância, com um estudo em meados de março a garantir que 20% dos alunos estavam excluídos das aulas à distância por não terem computador em casa. Mais recentemente, no final de junho, e depois de várias críticas, o Governo anunciou que vai dar computadores a 300 mil alunos, numa primeira fase a estudantes de famílias carenciadas.

Indo ainda mais longe, o Governo garantiu que vai disponibilizar 400 milhões de euros para o acesso universal a computadores à Internet. O investimento já estava previsto no Programa de Estabilização Económica e Social e vai "dotar as escolas, os docentes e os alunos para o desenvolvimento de competências digitais no trabalho escolar", explicou recentemente o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

Quanto à formação, Cláudia Alves garantiu que sentiu essa necessidade e que as realizou. Até porque recorreu a plataformas que até então eram pouco ou nada utilizadas ou exploradas.

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Já a professora universitária explica que o IPBeja disponibilizou, logo na fase inicial de confinamento, várias formações online para docentes, nomeadamente sobre a utilização do Zoom e do Teams e a elaboração e realização de avaliações escritas através do Moodle. Para além disso, “foi também disponibilizada documentação variada sobre ferramentas e orientações para o ensino a distância”, garante.

Questionada sobre se vê nesta forma de ensino uma possibilidade viável para o início de mais um ano letivo, caso a pandemia de COVID-19 assim o obrigue, Margarida Pereira considera que deverá ser adotada, sobretudo para aulas teóricas. Isto desde que “não comprometa a aquisição de competências pelos estudantes”, esclarece. Quanto às aulas práticas, de campo e laboratoriais, uma forte realidade no IPBeja, a docente defende um plano que contemple a redução do número de alunos por turma, e um eventual desdobramento, e considerar dois períodos diários de aulas, de manhã e tarde. O objetivo passa por “reduzir o número de alunos presentes nas instalações em simultâneo”.

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