O presidente da maior fabricante de chips a nível mundial, a TSMC, admitiu esta quarta-feira que as tensões China - Estados Unidos, por causa de Taiwan, podem ter um impacto muito significativo na indústria de semicondutores nos próximos tempos.

Numa intervenção durante a conferência anual da associação do sector em Taiwan, Mark Liu deixou o alerta: "o conflito comercial EUA-China e a escalada das tensões entre os dois países trouxeram desafios ainda mais sérios a todas as indústrias, incluindo a indústria de semicondutores".

A TSMC tem a sua base de operações em Taiwan e sozinha controla mais de metade da produção mundial de semicondutores (foundry). Num documento da Casa Branca publicado no ano passado, reconhece-se isso mesmo: a TSMC tem uma quota global de 53% no design e produção de semicondutores. Entre TSMC e outras empresas baseadas em Taiwan, 63% da produção mundial de chips passa pela região, que tem nos Estados Unidos o seu principal apoiante internacional e na China o seu maior mercado comercial, como lembra a Reuters que cita as declarações de Mark Liu.

A posição da TSMC não é só importante em termos de volume, mas também em termos de capacidade de inovação. Os chips ou componentes produzidos nas fábricas da empresa são usados em todas as indústrias e pelos mais diversos clientes, nomes como a Intel, a Apple, a AMD ou a Nvidia, por exemplo. Por outro lado, a nível global, só a TSMC e a Samsung desenvolveram tecnologia de produção de chips a 5 nanómetros e só as duas preparam o arranque da produção a 3 nanómetros (a Samsung já começou), as tecnologias mais avançadas do mercado.

Exatamente por isso, a polémica visita de Nancy Pelosi a Taiwan há alguns meses teve na agenda um encontro com o presidente da TSMC, que os Estados Unidos têm tentado cativar para investir no país e que em 2020 até anunciou planos para uma fábrica no Arizona. A estrutura deve começar a funcionar em 2024.

Os milhares de milhões de dólares que os EUA vão aplicar ao reforço da capacidade de produção local de chips têm exatamente como prioridade captar empresas como a TSMC ou a Samsung, para fixar fábricas nos Estados Unidos, a par do reforço da capacidade de produção de empresas locais.

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O reverso da medalha é que, com o endurecimento das sanções comerciais à China, aceder aos mesmos apoios, indispensáveis para trazer os custos de operação no país para níveis mais próximos dos que existem na Ásia, implica fazer concessões.

Na guerra comercial que tem vindo a travar com a China, uma das apostas dos Estados Unidos é usar os recursos à disposição para bloquear o acesso do país à inovação, nomeadamente inovação que possa ser usada para desenvolver projetos na área da inteligência artificial, com fins militares.

As tecnologias de processamento mais inovadoras são uma das áreas onde as empresas americanas, ou a produzir nos Estados Unidos, já estão sujeitas a restrições que implicam escolhas claras entre um dos lados. A importância que ambos os países têm mostrado dar ao tema fazem antecipar que o sector pode continuar a ser usado como “arma”, por quem conseguir fazê-lo melhor e esse pode ser um dos motes do alerta do presidente da TSMC.

Vale a pena também lembrar o impacto que o fecho de fábricas em Taiwan teve no resto do mundo durante a pandemia, provocando uma escassez sem precedentes na área dos componentes eletrónicos.

O reflexo sentiu-se em muitas indústrias, com destaque para a automóvel que deixou de conseguir produzir milhares ou milhões de veículos. A falta de chips, críticos para todas as funções do carro associadas à informação de sensores, foi um dos principais problemas que, para muitas marcas, ainda não está resolvido. Novas ameaças ao funcionamento normal do mercado de chips, a juntar às que já se conhecem, como a inflação e a instabilidade geopolítica na Europa, são más notícias que tendem a ganhar escala global. Mark Liu já tinha alertado para isso no ano passado.

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