Muito já se escreveu sobre aquela que é uma das maiores “guerras” comerciais dos Estados Unidos a uma empresa tecnológica, com alguns traços semelhantes ao que a administração norte americana impôs à ZTE e que tem um impacto enorme no mercado de telecomunicações, TI e também nos smartphones.

Os primeiros sinais começaram a fazer-se sentir logo no início de 2018, quando a AT&T retirou o suporte à Huawei, mas em fevereiro foi o próprio diretor do FBI que lançou um aviso em relação à compra de smartphones da Huawei e da ZTE, por questões de segurança. Na altura a justificação era de que os serviços de inteligência dos EUA suspeitam que a Huawei tenha laços estreitos com as forças armadas chinesas e temem que a empresa possa fornecer ao governo chinês o acesso a dados através uma backdoor. Dai até ao bloqueio da venda em instalações militares por parte do Pentágono, a prisão da filha do fundador da Huawei, Meng Wanzhou, e a inclusão da empresa na lista negra dos EUA, foi um salto rápido, cujos resultados ainda estão para ser medidos de forma clara mas que se fazem sentir já nos resultados da tecnológica e que podem impactar a próxima geração de smartphones, em especial o Mate 30 que vai ser anunciado já amanhã.

Afinal o que está em causa e o que pode afetar os clientes de smartphones da Huawei? A empresa tem defendido sempre a sua inocência, sublinhando que não há provas nehumas de falhas de segurança, e promovido em diversos canais o esclarecimento das principais dúvidas. Mas continua a haver muitas questões no ar que procurámos responder neste artigo, juntando os principais acontecimentos desde 2018.

Nos próximos dias haverá certamente mais algumas respostas a dúvidas que permanecem e o SAPO TEK vai estar na conferência de lançamento do Mate 30, pelo que este é um artigo que vamos continuar a atualizar e que pode beneficiar também de novas questões que os leitores considerarem importantes e que podem partilhar na área de comentários.

Quando começou o bloqueio da tecnologia Huawei nos EUA?

Os primeiros avisos e restrições à compra de produtos da Huawei começaram logo no início de 2018, mas a tensão foi subindo de nível, primeiro na área dos equipamentos de telecomunicações e tecnologias de informação, muito relacionados com o 5G. Mas o bloqueio efetivo só se concretizou em maio de 2019, com a inclusão da Huawei na lista negra de empresas com quem os EUA não têm relações comerciais. Foi emitida uma ordem executiva permite ao governo banir a tecnologia de "adversários estrangeiros" se eles representarem "riscos inaceitáveis" para a segurança nacional e a Huawei passou a integrar uma lista de entidades do departamento de comércio que proíbe a aquisição de componentes ou tecnologia de empresas americanas sem aprovação do governo.

Quase logo depois de ter sido conhecido o bloqueio foi dado um prazo de três meses de transição às empresas para continuarem a fornecer produtos e serviços, que terminava a 19 de agosto, um prolongamento que foi novamente estendido por mais 90 dias, e que termina agora a 19 de novembro.

Há outros países a tomar as mesmas medidas? E qual a posição de Portugal?

A Austrália foi o primeiro país a seguir a mesma linha de restrições que os Estados Unidos e outros países também adotaram uma postura cautelosa. Os Estados Unidos terão pressionado os seus parceiros e vários países para também bloquearem a compra e utilização de tecnologia da Huawei mas na Europa a posição tem sido de manter a vigilância, sem retirar a confiança à empresa, uma postura também seguida por Portugal onde várias operadoras de telecomunicações mantêm contratos com a companhia chinesa.

O que significa efetivamente o bloqueio imposto pelos EUA?

Na prática todas as empresas norte americanas estão impedidas de vender produtos e serviços, e fornecer tecnologia e até licenciamento de patentes, à Huawei. Depois das sanções impostas, várias empresas confirmaram que iriam deixar de fornecer os seus produtos, como a Intel, Qualcomm e a própria ARM.

Com a suspensão do bloqueio até 19 de novembro, a Huawei pode continuar a usar os serviços nos produtos que já comercializa, mas não pode desenvolver novos produtos com base na tecnologia das empresas norte americanas.

De notar que as tecnológicas norte americanas têm tentado que a administração Trump levante as sanções impostas, até agora sem sucesso. Ainda esta semana a associação de semicondutores pediu que sejam aprovadas as licenças de exportação, sublinhando que a situação faz com que seja mais difícil às empresas norte americanas concorrer com outras companhias estrangeiras. Esta associação integra empresas como a Intel, Qualcomm e Texas Instruments.

Segundo os últimos números, dos 70 mil milhões de dólares gastos pela Huawei na compra de components em 2018, cerca de 11 mil milhões foram canalizados para empresas norte americanas como a Qualcomm, a Intel e a Micron Technology.

Refira-se ainda que a própria Huawei desenvolve e fabrica chips e que os seus smartphones usam os processadores Kirin, desenvolvidos internamente. Para já a marca está a perder terreno claramente nos smartphones onde chegou a ameaçar a primeira posição da Samsung.

O bloqueio pode afetar outras empresas chinesas?

Na base deste litígio está a "guerra comercial" entre os Estados Unidos e a China e por isso nenhuma empresa chinesa deve estar completamente descansada quanto à possibilidade de retaliações semelhantes. Até porque tudo indica que não existem realmente provas das acusações que os EUA fazem contra a Huawei. Mas até agora não há sinais claros de que estejam outras empresas tecnológicas na mira dos EUA, para além da ZTE e da Huawei.

Os smartphones da Huawei vão poder usar o sistema operativo Android?

A Google tem de cumprir a decisão do Governo, embora não faltem avisos do impacto que a saída de um fabricante como a Huawei, que está no número 2 do top mundial, tem no ecossistema Android.

A fabricante chinesa tem afirmado sempre claramente que quer continuar a usar o Android, mas que tem um plano B, com o sistema operativo HarmonyOS que desenvolveu internamente – e que já teve o nome de código de Hongmeng, mas há muitas dúvidas sobre como poderá ser a adesão dos utilizadores e de que forma pode fazer crescer rapidamente o ecossistema de aplicações.

A Huawei pode usar a versão de código aberto do Android, mas está impossibilitada de utilizar versões licenciadas que incluem o suporte técnico e pré-instalação de aplicações da Google, como Google Maps e Gmail.

Para já os smartphones que estão no mercado continuam a ser atualizados com as novas versões do Android e com updates de segurança, mas apesar da Huawei garantir que vários modelos vão receber o novo Android 10, incluindo os recentes P30 e Mate 20, a Google não tem qualquer indicação disso no site sobre o novo sistema operativo.

E os computadores podem usar o Windows?

Da mesma forma que a Google, também a Microsoft está impedida de fornecer produtos e serviços à Huawei, o que tem impacto na linha de computadores portáteis MateBook mas também noutros equipamentos da área de TI.

A empresa norte americana retirou os computadores da Huawei da sua loja do Windows e na semana passada a Huawei lançou o seu primeiro portátil com Linux, o que pode ser um sinal de que vai optar por outro caminho.

Quando é que termina este bloqueio?

Para já a extensão da suspensão do bloqueio está em vigor até 19 de novembro de 2019. Mas está nas mãos da administração Trump voltar a prolongar esta decisão, ou terminar o bloqueio.

Donald Trump afirmou ainda em julho que as empresas norte americanas podiam vender tecnologia à Huawei mas que era preciso obter uma licença, num processo que nunca foi claramente explicado.

Quem já conseguiu a licença?

Depois de uma conferência onde Donald Trump admitiu a emissão de licenças para as empresas que quiserem continuar a fornecer tecnologia à Huawei, várias companhias terão feito esse processo, mas segundo a Reuters os pedidos estão bloqueados no Departamento de Comércio. Serão mais de 130 os pedidos, que não estão a ter seguimento. Fontes citadas pela agência dizem que isto se deve a mensagens dúbias, e ao facto de não existir uma clareza sobre o que a administração norte americana pretende fazer.

O novo Huawei Mate 30 vai ter sistema operativo Android?

Esta é uma das grandes incógnitas a que ninguém ainda conseguiu dar resposta, mas que amanhã será resolvida. Nos últimos anos a empresa tem marcado o lançamento dos seus smartphones Mate para Outubro e desta vez antecipou em um mês o anúncio que vai acontecer amanhã, em Munique, numa conferência onde o SAPO TEK vai estar presente. O Mate 30 poderá chegar com o Android, mas há quem indique que seja a versão "básica" open source. Já o HarmonyOS poderá vir a ser utilizado pela marca Honor e por uma linha de TVs, e ainda por outras fabricantes de smartphones.

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